Rendeiras do Sertão do Ribeirão: Tempos de delicadeza

Rendeiras do Sertão do Ribeirão: Tempos de delicadeza

A renda de bilro é o artesanato mais tradicional da ilha de Santa Catarina e se mantém entre as referências mais belas da cultura local graças aos admiradores de um artesanato requintado e de bom gosto. A partir da valorização dessa cultura, felizmente é possível encontrar em alguns lugares da cidade as rendeiras manejando os bilros em cima das suas almofadas, essas que levam os bilros presos em suas linhas, que podem ser de tons claros ou bastante coloridas.  Como resultado da sua grande importância na região também é celebrado  no dia 21 de outubro o dia municipal da rendeira.

Essa tradição, vinda dos Açores com os primeiros portugueses, foi difundida primeiramente em áreas do litoral brasileiro, em especial nas comunidades de pescadores.  Essa herança  está presente não apenas no estado de Santa Catarina, mas também em outras regiões do Brasil, como no sudoeste e nordeste do país, onde  continuam sendo transmitidas através de gerações.

No Sertão do Ribeirão, localidade escolhida por algumas famílias de agricultores portugueses para desenvolver atividades rurais, não foi diferente. Foi assim com Dona Osvaldina Maria Barcelos, a Dina. Ela aprendeu com sua mãe Dona Maria da Silveira desde seus 6 anos. Dona Maria, que também recebeu ensinamentos de seus antepassados, passou seu conhecimento na feitura dos mais diversos tipos de renda para outras mulheres da comunidade, incluindo a esposa de seu filho,  a Sra Dilma Martins que também nos mostrou suas belas rendas.

Essas mães e avós do Sertão seguem com essa tradição até os dias de hoje e utilizam a renda para decorar suas casas, para venda, ou o fazem como distração. Cada uma tem seu gosto próprio, umas tecem rendas de cores mais clássicas, como o branco o bege,  outras já preferem o colorido vibrante. De todas as formas e cores a beleza das rendas está debruçada a essas almofadas encantadas.

Um brevíssimo resumo de feitura dessa arte

Para a confecção das rendas de bilro são utilizadas almofadas de tecido em forma de cilindros e cheias de capim do campo, macela ou palha de bananeira. Os bilros são pequenas bobinas de madeira feitas por artesãos ou familiares das rendeiras.  O pique é como se chama o molde, onde elas perseguem a trama. Nesse pique perfurado com os alfinetes são presas as linhas dos bilros pendentes, e de acordo com o molde escolhido, vão formando os pontos da renda.E elas seguem em movimentos rítmicos passando os bilros uns nos outros, por cima, por baixo, com as mãos rápidas, olhar atento ao pique e tecem:  céu estrelado, tramóia, sete pares, bicuda ou margarida, são alguns nomes dessas rendas.

As pessoas que visitam as rendeiras ficam surpresas com a extrema complexidade desse fazer, e para compreender o que se lê nessas linhas tecidas de história e dedicação, é preciso muito sensibilidade.

Porém é de destacar que homens também têm a habilidade de rendar com igual delicadeza e capricho.

A Ratoeira

De representação do feminino tradicional nativo de Florianópolis, a Ratoeira são as cantigas de roda que as mulheres entoam enquanto tecem, e fazem alusão a elementos ambientais (especialmente a plantas, flores, fenômenos climáticos, animais etc.) e versam de improviso sobre casos amorosos e jocosos .  Uma cantiga que encontrei para mostrar essa brincadeira:

Ratoeira bem cantada, faz chorar, faz padecer

Também faz um triste amante

Do seu amor esquecer…

Meu galho de malva meu manjericão, dá três pancadinhas no meu coração (Bis)

Senhora fulana entre dentro desta roda

Diga um verso bem bonito

Diga adeus e vá se embora

Escrevi na areia fina,

Com peninha de pavão

Para o saber do mundo

Que eu de ti tenho paixão

Meu galho de malva meu manjericão, dá três pancadinhas no meu coração (Bis)

É impressionante e belo participar de eventos onde as rendeiras se reúnem para celebrar essa arte ancestral, de união de delicadeza.  Sou uma apaixonada por artesanatos e as rendas, em especial, estão por vários cantos e paredes de minha casa.

E você? O que acha de conhecer a vida, arte e canto dessas rendeiras? Se lhe interessa, acompanhe nossas atividades! Esta é uma das propostas de vivência que trazemos no Roteiro SerTão Local, o tour criativo que está sendo traçado com os moradores dessa generosa localidade.

Informações Whatsapp + 55 48 996330090

Abraços da Lica

Referências e contribuições: “Para quem se interessar, olhe as palavras de Symaia*, ela fala do cantar, é uma moça muito interessada pela arte de trovar” (essa fui eu querendo brincar ) .

*http://www.fg2013.wwc2017.eventos.dype.com.br/resources/anais/20/1373399013_ARQUIVO_Ratoeirabemcantada.pdf

Algumas informações pesquisadas do Caderno da Cultura Catarinense. Ano 1. 1985.

Entrevistas e visita às rendeiras com acompanhamento e apresentação de Karlota Scotti

Related Posts

Enter your keyword